September 2011
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June 2008
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A mãe chega amanhã. Além da festa terá à sua espera o meu obituário falso, escrito em parceria com a tia Madalena.
Hoje iniciei outro projecto: uma revista underground. Chama-se Sexu.Al - Sexualidade para gente real. A primeira edição será fotocopiada e distribuida sobretudo pelos destinatários das cartas que tenho vindo a juntar. Cada edição será única por ser personalizada, pois conterá uma missiva respeitante ao destinatário em causa.
A minha mãe regressa amanhã. Vai ser recebida com festa. À sua espera estará também a cadeira de rodas que necessita para a experiência. Furtei-a à Dona América, do primeiro direito. Ela não a utiliza em casa, deixando-a no corredor. Bem feito: já a havia avisado que era perigoso deixar ali a cadeira de rodas.
No meu quarto tenho uma arca em madeira. Tem-me servido para depositar roupa interior usada. Cuecas, sobretudo. Confesso que sou vencido pela preguiça. Dispo-me e guardo lá essas peças, sempre com a intenção de as transportar para a lavandaria.
Iniciei hoje a distribuição de bolinhos da sorte pelos vizinhos a quem subtraí correspondência. São embalados individualmente e, no interior, uma frase retirada de uma qualquer carta que apreendi. Por exemplo, para o senhor Orlando:«O seu crédito não foi aprovado.»
A porta do quarto casulo nº3 parece forçada, do lado de dentro.
Uma das cartas recolhidas ontem continha uma nota de 50€, enviada por uma avó Isilda para o seu neto, com um pequeno bilhete de caligrafia horrível:«Parabéns, meu querido netinho. Compra a bola de futebol”. Logo vou a uma loja de desporto com a tia Madalena. Compraremos uma bela bola, em honra do Tózé.
Iniciei o retrato da tia Madalena. Comecei pelo cabelo. Retrato-a como se ainda tivesse a sua longa cabeleira. Pintei uma folha em tons amarelados, cortei-a em tiras pequenas e pedi-lhe que as segurasse na cabeça, para simular o cabelo.
Comprei um viveiro de formigas. Este item fazia parte da lista da carta que escrevi ao Pai Natal em 1993.
A vantagem de viver numa habitação com muitas divisões é que posso desenvolver diversas actividades: um quarto equivale a uma micro-empresa. Tenho dois projectos em andamento, contando com a valiosa contribuição da tia Madalena: num dos quartos existirá uma emissora de rádio e noutro uma empresa de sexo por telefone.
Tenho aproveitado a ausência da mãe para fazer coisas incríveis com a Tia Madalena. A sua mais recente sugestão é fantástica: vivermos o resto da nossa vida num hotel Ibis.
A mãe foi passar uns dias a Espanha. Aguardei que a tia Madalena adormecesse e coloquei-lhe a peruca que fiz. Coloquei o meu alarme para trinta minutos antes do seu despertar, para poder apreciar o nascer do dia e o sol a banhar-lhe a cabeleira.
A tia Madalena foi cortar o cabelo, de manhã. Regressou com um corte à rapaz. Estou desolado. Perdi os longos cabelos louros que, ultimamente, enrolava até adormecer. Fui ao cabeleireiro da Zita e consegui recuperar a maior parte do cabelo cortado. Em casa fiz uma peruca grosseira, com cola de sapateiro. Usá-la-ei sempre que tiver saudades da tia Madalena de cabelo comprido.
A mãe disse que deseja comprar uma cadeira de rodas, para utilizar durante uma semana. Pelo lado pedagógico da coisa. A tia Madalena ficou chocada. Diz que apenas participa se for uma cadeira de rodas eléctrica, para não se cansar.
A minha mãe confessou-me que vai deixar de fumar pelo mesmo motivo que a levou a começar: irritar os outros.
A funcionária do Dr. Varela telefonou hoje manhã, a avisar que a consulta da minha mãe é depois de amanhã, e que é obrigatório comparecer para o exame. Não vou dar o recado sob pena de a angústia poder deprimir a mãe. Passei na herbanária do Teófilo e trouxe um chá, cujas moagem o torna muito semelhante a coentros. Na cozinha substituí o recheio do frasco do tempero pelo da erva medicinal.
Logo à noite acontece um sarau, em minha casa. A mãe pediu-me que até lá decida o tema, apesar dos convidados terem sido convocados há quase três semanas. Estou indeciso entre subordinar a noite a: rever episódios antigos de O Cão Vagabundo; discutir receitas de peixe ou analisar a correspondência que recolhi.
Comprei dois bidões na loja dos chineses, ao fundo da rua. Comecei ontem à noite a juntar combustível. Dos automóveis dos meus vizinhos.
No Dia da Criança a minha mãe ofereceu-me um conjunto de pintura. A tia Madalena sugeriu que pintasse um retrato seu. Anuí.
May 2008
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A tia Madalena vai passar uma temporada cá em casa. É óptimo. Em casa só existe uma cama king size, que o meu pai comprou em 1983, num leilão. A estada da tia Madalena envolverá uma operação logística rápida.
A mãe comportou-se bem, durante a festa. Tinha-lhe pedido que não aborrecesse os convidados. Cerca das 20:00 desmaiou bêbeda. Dois rapazes das entregas do Continente fizeram o favor de a levar ao quarto. Vigiaram-na o resto da noite, alternadamente.
A festa de aniversário durou até de madrugada. Estiveram presentes cerca de cinquenta pessoas. Novos amigos, sobretudo. Há cerca de dois meses que tenho vindo a fazer compras e pedi que as entregas fossem feitas ontem. Convidei os empregados que fizeram as entregas a beber um copo.
A mãe regressou entretanto. Trouxe-me outro presente: uma tesoura de bicos redondos e cabo laranja, que eu cobiçava há já várias semanas. Pedi-lhe que fizesse um ditado. Concordou. Depois, cortei cautelosamente as palavras que me interessavam e expedi uma carta para à Alexandra: “Deixa o meu namorado em paz. Odete.”.
Hoje, por ser dia especial, vesti um casaco do meu pai. Cheirava ligeiramente a naftalina, coisa que corrigi com o spray ambientador anti-tabaco da mãe.
Celebro o meu trigésimo oitavo aniversário hoje. A mãe deixou-me um presente na mesa da cozinha. Abro-o logo. Li os jornais em busca de uma notícia marcante. Fui descobri-la numa edição do Correio da Manhã de 1989: “Produção de sandálias aumenta.”
A Tia Madalena ficou contente com o meu convite. Chega logo à tarde, apesar da festa só ser amanhã. Vou mostrar-lhe a minha colecção de postais antigos de cartas dos vizinhos* *Alarguei o meu raio de acção e recolho também correio nos dois prédios contíguos ao meu.
Recebi hoje uma carta da Alexandra a agradecer todas as bebidas que lhe paguei há duas semanas, e a pedir desculpa por não ter ido para a cama comigo.
Tenho uma série de autoretratos em que finjo que estou a chorar. Li já não me lembro onde que dão um ar sexy a um homem. Vou escolher uma delas como frente para o convite a enviar para a minha festa de aniversário.
Recebi hoje a encomenda de dois frascos de clorofórmio. Mais logo vou telefonar à tia Madalena a convidá-la para o meu aniversário.
O meu aniversário acontece na próxima quinta feira. A mãe vai preparar-me uma festa surpresa. Sei porque li um post-it que ela esqueceu no espelho da casa de banho. O ano passado, além das sandálias, ofereceu-me um porta-moedas.
No sábado à noite a mãe experimentou o conjunto de noite que lhe ofereci. Fica-lhe bem. Justo ao corpo. Pedi-lhe que me chamasse Alcino (o remetente das cartas que encontrei na gaveta). Ela fez-me a vontade.
Na passada sexta feira a Tia Dulce convidou-me a mim e à mãe para irmos jantar a um restaurante de sushi. Aquilo sabia a peixe cru.
Uma das cartas retiradas da caixa de correio do vizinho do segundo esquerdo foi remetida da Venezuela. Fala de dois filhos e dinheiro de pensões. Olhando para o senhor ninguém diria que se tinha metido em aventuras. Talvez responda à carta, com caligrafia cuidada, recusando o convite para contribuir para a educação de dois jovens venezuelanos.
Acabei há pouco o resumo de dois livros. A minha mãe fará boa figura na tertúlia de leitura mensal. Nunca leu nenhum dos livros propostos.
Ontem à noite,enquanto arrumava a roupa interior da minha mãe, descobri várias cartas numa das gavetas, de um remetente masculino que desconheço.
De há umas semanas a esta parte tenho retirado a correspondência das caixas de correio dos meus vizinhos. Por dois motivos: as pessoas, hoje em dia, dão demasiados erros e são pessimistas: incomodam os destinatários com os seus problemas.
A minha mãe está contente porque não calço as sandálias há dois dias. O que ela não sabe é que experimentei um verniz novo.
O vizinho do quarto direito telefonou para o meu numero fixo. Perguntou se morava algum velho em casa. Fingi que era a minha mãe e disse que não, que devia ser engano.
Telefonei para o número que constava no aviso, no elevador, por causa da chave. Atendeu o que pareceu ser o vizinho do quarto direito. Pedi-lhe uma descrição da chave.Disfarcei a voz com meio guardanapo de papel na bochecha direita.
A minha mãe costuma ficar acordada até tarde a fazer origami, sem se aperceber que eu fico a olhar para ela, à espera que se venha deitar.
De manhã, no café, a empregada chamou-me a atenção para um botão da camisa solto. Vou evitar este estabelecimento. Não gosto de intrometidos.
Os carros que passam na minha rua circulam a velocidade excessiva. A Dona Carminda, do terceiro andar ia sendo atropelada. Viver na cidade é uma odisseia.
Arrotei a cebola há coisa de cinco minutos.
No elevador colocaram um bilhete a dizer que encontraram umas chaves.
No elevador cheirava a chulé. Gostava de habitar no rés do chão.
A mãe acha que ainda não está tempo para eu andar de sandálias. Eu acho é que ela está mas é preocupada com o tamanho das minhas unhas.
Esqueci-me de comprar algodão.
Mamã: Não te esqueças de fazer um duplicado da chave.
Eu: De que cor queres que seja o cabo?
Mamã: Fica ao teu critério, meu querido.
Eu: Ok.
O Sr. Américo enganou-se no troco.